A inteligência artificial está presente em 59% dos órgãos públicos federais e estaduais do Brasil, segundo os resultados da pesquisa TIC Governo 2025, divulgados em 23 de julho de 2026 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), departamento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Nas prefeituras, a adoção cai para 27%.

O levantamento importa para quem gere operações porque mede não a intenção de usar tecnologia, mas o que já está instalado nos órgãos com que empresas e fornecedores lidam todos os dias: onde a IA entrou, para quê, e o que ainda trava a adoção.

O que a pesquisa mediu

A TIC Governo 2025 é a sétima edição do estudo que investiga a incorporação de tecnologias de informação e comunicação nos órgãos públicos brasileiros. A coleta foi feita entre julho de 2025 e abril de 2026, com 576 órgãos públicos federais e estaduais e 3.253 prefeituras. A pesquisa entrevista gestores de tecnologia dos três níveis federativos e dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do Ministério Público.

Quem produz a pesquisa O Cetic.br é o departamento do NIC.br responsável por produzir indicadores sobre acesso e uso de tecnologias no Brasil. A publicação dos resultados é feita sob a coordenação do CGI.br, entidade multissetorial que estabelece diretrizes para o uso da internet no país. A série TIC Governo é periódica, o que permite comparar edições ao longo do tempo.

Onde a IA já está

A adoção varia bastante conforme o poder e a esfera. Entre os órgãos federais e estaduais pesquisados, os percentuais de uso de inteligência artificial em 2025 foram:

  • Judiciário: 94%
  • Ministério Público: 92%
  • Poder Legislativo: 83%
  • Poder Executivo: 55%

Por esfera, a adoção é maior nos órgãos federais (70%) do que nos estaduais (58%). Outras tecnologias aparecem em patamares bem inferiores: a internet das coisas foi citada por 20% dos órgãos federais e 29% dos estaduais, e o blockchain, por 25% na esfera federal e 17% na estadual.

A leitura direta desses números é que a IA deixou de ser piloto isolado e se tornou a tecnologia emergente mais difundida no setor público brasileiro, à frente de alternativas que dominaram o debate nos anos anteriores.

Para que a IA está sendo usada

Entre os órgãos federais e estaduais que usam inteligência artificial, as aplicações mais frequentes são:

  1. Automatização de processos de trabalho: 39% das instituições (45% na esfera federal e 38% na estadual).
  2. Mineração de texto e análise de linguagem: 35% dos órgãos (46% na esfera federal e 34% na estadual).
  3. Aprendizagem de máquina para predição: 31% dos órgãos (39% na esfera federal e 30% na estadual).

O padrão se repete nos municípios, em escala menor: 14% das prefeituras citam automatização de processos e 12%, mineração de texto. Entre os objetivos declarados pelas prefeituras, 17% apontam melhoria de serviços ao cidadão, 17% melhoria das operações internas, 14% apoio a políticas públicas e 10% fiscalização de recursos.

Vale a distinção: o uso predominante não é a decisão automatizada de mérito, e sim o apoio a tarefas de processo e de leitura de documentos. É um dado relevante para quem imagina a IA pública sobretudo como sistema que decide sozinho.

A IA generativa entrou pelos processos internos

A pesquisa também mediu especificamente o uso de IA generativa, e o retrato é de aplicação mais voltada para dentro do que para o atendimento ao público. Na esfera federal, 65% dos órgãos relataram uso em processos internos, contra 29% em serviços ao cidadão. Na estadual, foram 56% e 28%, respectivamente. Nas prefeituras, 31% e 17%.

O suporte institucional a esse uso é desigual. Treinamentos sobre IA generativa foram oferecidos por 59% dos órgãos federais, 44% dos estaduais e 14% das prefeituras. Ferramentas contratadas apareceram em 46%, 27% e 10%, e diretrizes formais de uso, em 43%, 30% e 10%, na mesma ordem.

A distância entre uso e diretriz é o ponto que mais interessa a quem cuida de governança: em todas as esferas, o percentual de órgãos que usam IA generativa em processos internos supera o dos que publicaram regras internas sobre esse uso. A pesquisa registra os dois indicadores; a interpretação de risco é nossa.

Nas prefeituras, o porte é o divisor

Entre os municípios, a adoção de IA fica em 27%, mas o número esconde uma diferença grande de porte. Nas cidades com mais de 500 mil habitantes, o índice chega a 85%, e nas capitais, a 81%. Nos municípios de até 10 mil habitantes, cai para 22%.

As barreiras declaradas ajudam a explicar o desnível. A falta de capacitação foi citada por 40% das prefeituras, contra 21% dos órgãos estaduais e 19% dos federais. Entre os municípios, aparecem ainda a tecnologia não ser prioridade (36%), a ausência de necessidade ou interesse (35%), a disponibilidade e a qualidade dos dados (35%) e os custos elevados (34%).

Esse recorte conversa com o quadro que a seção já registrou em Internet chega a 95% dos domicílios brasileiros, mas só 41,1% dos usuários acessaram serviços públicos on-line: a infraestrutura avançou mais rápido do que a capacidade de transformá-la em serviço usado.

O gargalo silencioso: medir o que já foi digitalizado

Um conjunto de indicadores da pesquisa trata de algo menos comentado do que a IA, mas decisivo para operação: saber se o serviço digital funciona. Entre as prefeituras, 83% oferecem nota fiscal eletrônica e 69% permitem a emissão de documentos on-line, mas apenas 30% coletam estatísticas de uso desses serviços e 22% medem a satisfação do usuário. Nos órgãos federais, a coleta de estatísticas chega a 63% e a medição de satisfação a 56%; nos estaduais, a 47% e 33%.

Houve avanço nos canais de atendimento: o uso de aplicativos como WhatsApp e Telegram nas prefeituras passou de 56% em 2023 para 64% em 2025, enquanto o telefone convencional segue em 83%. Nos órgãos federais, o atendimento por esses aplicativos aparece em 39%, e nos estaduais, em 43%.

A leitura prática, para gestores públicos e para fornecedores que atendem o setor, é que o serviço passa a existir em canal digital antes de existir medição sobre ele. Sem registro estruturado do que acontece em cada atendimento, não há linha de base para avaliar se a automação ou a IA melhoraram alguma coisa. É o mesmo princípio que tratamos em Governança de atividades e em Tempo de atendimento: como medir e reduzir.

Por que importa para quem opera

Para empresas que prestam serviço a órgãos públicos, os dados indicam um interlocutor mais maduro em tecnologia na esfera federal e nas grandes cidades, e ainda dependente de capacitação nos municípios menores. Para gestores públicos, a pesquisa oferece um parâmetro de comparação: é possível situar o próprio órgão em relação à média do seu poder, da sua esfera e do porte do seu município.

Há também um alerta indireto sobre dados pessoais. O uso de IA em órgãos públicos é justamente um dos eixos que a Autoridade Nacional de Proteção de Dados elegeu como prioritário, como registramos em ANPD define prioridades de fiscalização para 2026 e 2027. E o diagnóstico brasileiro dialoga com a agenda internacional descrita no Digital Government Outlook 2026 da OCDE, que colocou a confiança na inteligência artificial entre as cinco prioridades do governo digital.

Próximos passos

A TIC Governo é uma pesquisa periódica, e o Cetic.br publica os microdados e as tabelas completas de cada edição em seu portal, além do release com os principais resultados. Novos recortes e análises da edição 2025 podem ser divulgados ao longo dos próximos meses.

Esta notícia está classificada como atual e será revisada em novembro de 2026, ou antes, caso o Cetic.br publique dados adicionais relevantes da mesma edição.

Nota editorial. Conteúdo informativo, sem caráter de orientação jurídica. Os percentuais reproduzidos constam do release oficial da pesquisa publicado pelo Cetic.br e pelo CGI.br em 23 de julho de 2026 e se referem à edição 2025 da TIC Governo. Indicadores que não puderam ser confirmados na fonte oficial não foram reproduzidos. Onde há interpretação editorial, isso está indicado no texto.

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Fontes e referências

  1. Cetic.br / NIC.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR). IA está presente em seis de cada dez órgãos públicos federais e estaduais e chega a 94% no Judiciário, aponta TIC Governo. Publicado em 23/07/2026. Português. Fonte primária (release oficial da pesquisa). Consultado em 12/08/2026. Sustenta: a data de divulgação, a edição da pesquisa, o período de coleta, a amostra e todos os percentuais citados nesta notícia.
  2. CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil). IA está presente em seis de cada dez órgãos públicos federais e estaduais e chega a 94% no Judiciário, aponta TIC Governo. Publicado em 23/07/2026. Português. Fonte primária (release oficial no portal do CGI.br). Consultado em 12/08/2026. Sustenta: a confirmação independente dos mesmos números, do período de coleta e da amostra.
  3. Cetic.br. Pesquisa TIC Governo (página da pesquisa). Português. Fonte oficial. Consultado em 12/08/2026. Sustenta: o objetivo da série, o público entrevistado (gestores de TIC dos três níveis federativos e dos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público) e o caráter periódico do estudo.
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Equipe Editorial SI Soluções Digitais

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